
1922 Monitoras de ginástica do Liceu Garrett
Há 100 anos, a reforma republicana do Ensino Primário procurava inverter o triste legado de um país pobre, com uma taxa de analfabetismo que rondava os 80 por cento. No Palácio Valadares, em Lisboa, a exposição "Educar" passa em revista a herança pedagógica republicana que, se nem sempre cumpriu os objetivos, teve, pelo menos, grandes ambições
Meninos perfilados, vestidos de igual, olham a objetiva do fotógrafo com temor ou curiosidade, depende da têmpera de cada um. Podem ser os nossos avós, nesse tempo, improvável a nossos olhos, em que eram mais novos do que nós. "(...) O mais imperioso dever do Estado é instruir, porque instruir é enriquecer e dar felicidade.", lê-se logo na entrada da exposição "Educar - Educação para Todos. Ensino na I República" que pode ser vista no Palácio Valadares, em Lisboa (no Largo do Carmo), até 30 de junho. Esta afirmação de princípios, base programática do ideal republicano, pertence a César da Silva e foi proferida em 1912 durante um dos vários congressos pedagógicos realizados nos anos 1922 Monitoras de ginástica do Liceu Garrett que se seguiram à implantação da República. Não foi um simples punhado de palavras lançado ao vento. Como declara ao JL a comissária da exposição, Maria Cândida Proença, professora da Universidade Nova de Lisboa, "nos últimos anos da monarquia já a propaganda republicana incidia muitos nos temas educativos, nomeadamente na necessidade de regenerar o futuro da nação através do livre acesso dos portugueses à instrução."
No estertor da monarquia, o Partido Republicano "propunha reduzir o analfabetismo (cerca de 80% em 1890), criar instituições de educação pré-escolar adequadas, uma rede de escolas primárias eficaz, gratuitas, de frequência obrigatórias e neutras do ponto de vista religioso, com planos de estudo individualizados, aliando teoria e prática, trabalho individual e coletivo." Imbuídos desse espírito, os membros do Partido Republicano criaram, ainda em 1904, a Sociedade Promotora de Educação Popular e, meses depois, a Escola-Oflcina n"l, no Largo da Graça, em Lisboa (ainda hoje existente).
Este esforço, como se frisa na exposição, foi acompanhado por vasta produção teórica sobre pedagogia: Faria de Vasconcelos, Jaime Cortesão, João Soares, Leonardo Coimbra, Borges Grainha, Álvaro Viana de Lemos, António Aurélio da Costa Ferreira, António Sérgio, Alves dos Santos, João de Barros, João de Deus Ramos (filho do autor de A Cartilha Maternal e criador dos ainda hoje existentes Jardins Escola João de Deus), entre outros, escreveram amplamente sobre a necessidade de transformar profundamente a escola para transformar do mesmo modo a sociedade. O futuro Presidente da República, Bernardino Machado, professor da Universidade de Coimbra, escrevia, por exemplo, estas palavras iluminadas pelo idealismo: "A vontade forma -se pela luta com a necessidade, satisfazendo-se todos os apetites e desejos infantis. A vontade não se extingue; mas sem a disciplina que a princípio só lhe pode incutir a própria necessidade e sanção das leis naturais e sociais, irrompe de encontro a tudo e a todos, como que em busca da luta que lhe negam". "Na exposição - explica MCP - procurámos devolver a voz a estes homens, ouvindo-se os seus textos gravados pelos atores Manuel Wiborg, Paulo Pinto e Pedro Gil."
E as prioridades da Escola Republicana, quais eram? Antes de mais, a educação cívica e patriótica. Cultores da pátria e dos seus maiores símbolos (data dessa época a criação do termo "lusismo"), os educadores republicanos incensaram, para proveito e exemplo dos alunos, figuras como Camões, Vasco da Gama, D. João de Castro, mas também figuras da monarquia como o Rei D. João I ou o seu filho, o Infante D. Henrique. Mas o investimento pedagógico da época não passou apenas pela retórica patriótica, passou ainda pela aposta no ensino técnico e profissional e pelo ensino experimental das ciências, conforme se pode ver na exposição, em que são recriados os ambientes de uma oficina e de um laboratório escolar. As primeiras consequências dessas medidas puderam ser observadas ainda em plena vigência da República, quando, como é lembrado numa secção da mostra, algumas de jovens raparigas qualificadas romperam com séculos de imposições e chegaram ao mercado de trabalho como datilógrafas, enfermeiras ou (em casos mais raros) como médicas e advogadas.
Como escreve MCP no catálogo da exposição: "Uma das características mais inovadoras da escola republicana residiu na criação de um novo conceito de cidadão - o "homem novo" que era mister formar. A principal vertente da formação desse homem novo republicano assentava na introdução de uma área de formação cívica na escola primária com a qual se pretendia reforçar o aspeto laico e mesmo anticlerical do ensino, apesar das declarações de neutralidade presentes nos textos legais." Expressão disso mesmo era a festa da árvore, evocada no final da exposição, ritual cívico com que, de algum modo, a laica República procurava substituir, no coração do povo, as celebrações religiosas. Associada simbolicamente à regeneração da sociedade, esta festa fora criada pela maçonaria ainda antes de 1910, mas difundiu-se sobretudo a partir de 1913 (através de O Século Agrícola) e serviu, em muitos casos, para consagrar os novos símbolos do regime (como a bandeira e o hino)e para reafirmar a importância que a escola para a formação do caráter, no amor pela natureza e pala vida. Muitas décadas antes da criação de uma consciência ecológica, vemos centenas de meninas e meninos, acompanhados pelos seus professores, de pá na mão, a semear árvores que, em muitos casos, ainda nos oferecem sombra. Faziam-no com indesmentível brio, como se trouxessem consigo a chave do futuro.»
Maria João Martins







