Recortes de Imprensa

  • 08.09.2010
    Público
    E José Sócrates também discursa no centenário da República

    Cerimónias oficiais são em Lisboa. A 5 de Outubro, A Portuguesa vai ser tocada em "uníssono nacional" em mais de 200 localidades •

    São mais de 1000 iniciativas por todo o país para comemorar os 100 anos da República, a 5 de Outubro, com início a 29 deste mês e prolon-gando-se até meados do próximo. Um grande baile popular em Lisboa, espectáculos multimédia, peças de teatro, mas também colóquios, um deles com Jürgen Habermas, em Coimbra, sobre o futuro da República. Em Lisboa, a 5 de Outubro, as comemorações concentram-se na Câmara de Lisboa.

    Qualquer cidadão, com ou sem bigode, pode aparecer nessa manhã nos paços do concelho para participar na performance do grupo de teatro O Bando, Os Bigodes na Res Publica. Depois, pode ouvir o hino nacional tocado pela banda da GNR, sabendo que ao mesmo tempo, e em "uníssono nacional", mais de 200 bandas também tocarão A Portuguesa em outras tantas vilas e cidades. Os discursos oficiais são, como sempre, no Salão Nobre da câmara. E, em ano de centenário, além do presidente do município e do chefe de Estado, também o primeiro-ministro vai dis- cursar, o que acontece pela primeira vez neste tipo de cerimónias. A par do 25 de Abril e 10 de Junho, a celebração do 5 de Outubro é um dos momentos mais relevantes para as intervenções públicas dos presidentes da República.

    A Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, presidida por Artur Santos Silva, apresentou ontem o programa oficial numa conferência de impre-sa. Com o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, que sublinhou a "dimensão nacional" das comemorações. Para o dia 5 está prevista a inauguração de 100 escolas, novas ou resultado da requalificação feita nos últimos anos do parque escolar. "É uma homenagem que prestamos a um dos ideais republicanos e uma das iniciativas da I República - o alargamento da instrução", afirmou Silva Pereira. Ontem, em Loures, o primeiro-ministro destacou que estas inaugurações resultam de um trabalho de três anos, num discurso em que colocou em contraste a I República e o Estado Novo.

    De resto, as comemorações do centenário, que se iniciaram em Janeiro, prolongam-se até Agosto de 2011. Até ao final deste ano haverá ainda um Portugal-Espanha em futebol.

    08-09-10

  • 08.09.2010
    Jornal de Notícias
    5 de Outubro comemorado por todo o território

    5 de Outubro comemorado por todo o território

    Silva Pereira sublinhou a diversidade de eventos que assinala o 5 de Outubro Centenário da República

    Dimensão nacional e envolvimento dos cidadãos: eis as duas marcas que o Governo quer imprimir às comemorações do centenário da implantação da República, entre 29 de Setembro e 5 de Outubro, cujo ponto alto é a inauguração de 100 escolas.

    Ontem, na apresentação do programa, o ministro da Presidência salientou a preocupação de o programa não se cingir à cerimónia solene. "Estas comemorações têm o centro em Lisboa, mas dimensão nacional. Vão acontecer eventos um pouco por todo o país", disse Pedro Silva Pereira, aludindo à diversidade de even- tos, abertos à participação das pessoas.

    Fazendo um balanço "francamente positivo" das iniciativas que têm sido promovidas ao longo do ano, destacou a inauguração de 100 escolas, uma homenagem aos ideais republicanos, tendo em conta o papel da I República no alargamento da instrução. A inauguração das escolas, "umas novas e outras requalificadas", é uma iniciativa que tem contado com o envolvimento empenhado das câmaras municipais.

    O comissário das comemorações do centenário, Artur Santos Silva, abordou mais detalhadamente o programa, que inclui exposições, espectáculos multimédia, concertos, a circulação um autocarro e de um eléctrico alusivos à efeméride, bem como uma estafeta da República e animação no Terreiro do Paço.

    No dia 5 de Outubro, as cerimónias começam em Loures e em localidades da Margem Sul onde a República foi declarada em primeiro lugar e incluem uma "grande festa popular", à noite, promovida pela Câmara de Lisboa na Fonte Luminosa.

    Antes, a 30 de Setembro, realiza-se em Coimbra um colóquio internacional aberto pelo presidente da República, Cavaco Silva, com a participação de nomes maiores do pensamento republicano, como o filósofo Jurgen Habermas e John 0'cock.

    08-09-10

  • 08.09.2010
    Diário de Notícias
    A República vai chegar ao mesmo tempo a todo o País

    A 5 de Outubro, o País ouvirá o hino e inaugurará 100 escolas em simultâneo. Há 100 anos, notícias demoraram mais a chegar

    No Porto, a República chegou no dia 6. Em Braga, o grito de "viva a República!" ouviu-se por fim no dia 7. Em Guimarães só a 8 de Outubro de 1910 se proclamou o novo regime. Estes três exemplos mostram como as notícias da implantação da República demoraram a correr um país pobre, de incipientes redes de comunicação.

    Agora, 100 anos depois, o centenário comemora-se em simultâneo, no dia em que Lisboa proclamou da varanda do município que a monarquia tinha acabado, nas areias de uma praia da Ericeira, de onde embarcou para o exílio a família real, que fugia ao golpe.

    Ao meio-dia do próximo dia 5 de Outubro, terça-feira, o regime celebra-se com a inauguração de 100 escolas "em simultâneo nacional", nas palavras do programa oficial do Centenário. Em Lisboa, o Presidente da República, o primei-ro-ministro e outras individualidades vão dar corpo ao que o ministro da Presidência, ontem na apresentação das comemorações, disse sobre a inauguração das 100 escolas: "É uma homenagem que prestamos a um dos ideais republicanos e uma das iniciativas da I República de alargamento da instrução e é a melhor forma de o País, que está a comemorar o seu Centenário da República, valorizar esse aspecto sinalizando a sua aposta na educação."

    Antes, pelas 10:30 desse dia 5, decorre a cerimónia do hastear da bandeira, ao som de A Portuguesa tocado pela banda da Guarda Nacional Republicana, com interpretação de Elisabete Matos e das Jovens Vozes de Lisboa. Pelo menos 200 bandas vão replicar a pauta do hino, em "uníssono nacional", "ao sinal que será dado pela Banda da GNR a partir da Praça do Município, em Lisboa".

    "Estas comemorações têm o centro em Lisboa, mas têm uma dimensão nacional. Vão acontecer eventos um pouco por todo o País", insistiu Pedro Silva Pereira, na apresentação das iniciativas que se prolongam de 29 de Setembro e 5 de Outubro.

    "Há uma grande diversidade de iniciativas, portanto não vamos ter apenas a cerimónia solene, teremos acontecimentos culturais, desportivos, recreativos, lúdicos, que estão abertos à participação das pessoas", acrescentou o ministro. A seu lado, o comissário das comemorações, Artur Santos Silva, falou sobre o programa, que inclui exposições, espectáculos multimédia e concertos. Com Lusa

    08-09-10

     

  • 31.08.2010
    Time Out Lisboa
    Exposições "Viajar" e "Corpo"

    Sim, são mais duas exposições passadas no tempo da República, ou não fosse este o ano em que se celebra o centenário da sua implantação. As duas partilham a mesma praça, mas estão em locais distintos.

    Do lado esquerdo de D. José I, no Torreão Nascente do Terreiro do Paço, está Viajar -Viajantes e turistas à descoberta de Portugal no tempo da I República, uma mostra que revela a emergência do turismo organizado em Portugal. Viajar por prazer, para conhecer outros lugares e costumes, como distracção ou forma de repouso tornou-se um desejo acessível a mais pessoas. O ano de 1911 foi um momento fundamental, pois foi quando o governo criou as primeiras estruturas de apoio ao turismo.

    As velhas termas modernizaram-se, as praias começaram a receber veraneantes com regularidade, os lugares patrimoniais receberam mais visitantes. As fotografias, os hotéis, guias turísticos e os postais ilustrados que estão na exposição atestam este gosto em viajar. Nesta altura, quem viajava éramos aristocratas e os burgueses. Só no final do século as excursões e o aparecimento das carreiras de autocarros na epóca balnear deram acesso a outros grupos sociais.

    Torreão Nascente do Terreiro do Paço, todos os dias das 10.00 às 18.00. Até Outubro.

    Do lado direito da estátua de D. José I, no Torreão Poente, está uma outra mostra chamada Corpo-Estado, medicina e sociedade no tempo da I República, que oferece uma visão da medicina na história, integrando os médicos e o seu saber, as doenças e as políticas de saúde no contexto histórico da I República.

    Na exposição, o visitante percorre a evolução da medicina em Portugal, desde a credibilização dos médicos com formação, recordando algumas das figuras da época, as técnicas usadas, com especial destaque para um vídeo bastante explícito de uma operação cirúrgica a um cérebro humano. Não aconselhável a pessoas mais sensíveis. Segue-se uma apresentação dos instrumentos de diagnóstico e tratamento como seringas oftalmológicas e outros objectos que mais parecem de tortura.

    A mostra acompanha as medidas tomadas pelo governo da altura para promover a necessidade de um "corpo saudável", sem esquecer de mencionar as principais epidemias com que o país se defrontou, caso da cólera ou da gripe pneumónica, ou mesmo a evolução das autópsias, com a criação do Instituto de Medicina Legal.

    Torreão Poente do Terreiro do Paço, todos os dias das 10.00 às 18.00. Até Outubro. Entrada livre nas duas exposições Junto à saída Nascente existe uma loja da Vida Portuguesa onde estão à venda produtos relacionados com a República (ex. bigode republicano, pins, postais, etc)

    04-08-10

  • 28.08.2010
    Jornal de Letras
    Mente sã, corpo são

    A I República não foi apenas um acontecimento político. No Terreiro do Paço, em Lisboa, a Comissão Nacional para o Centenário da República apresenta as exposições CorpoViajar e mostra até que ponto esses 16 anos mudaram também o quotidiano mais íntimo dos portugueses. Maria João Martins

    Sabia que, em 1910, Portugal era o país europeu com maior incidência de casos de raiva? E que a tuberculose era um espetro mortal que pairava, como espada de Damócles, sobre todas as famílias portuguesas, independentemente da sua condição socioeconómica? Estes e outros dados impressionantes sobre as vidas, expectativas, pesadelos e mortes dos nossos bisavós podem ser conhecidos na exposição Corpo - Estado, Medicina e Sociedade no Tempo da I República, patente ao público no torreão poente do Terreiro do Paço e servida por um belíssimo catálogo coordenado por Maria Rita Lino Granel (comissária científica da mostra), com artigos de Alexandra Alegre, João Lobo Antunes, João Rui Pita, Jorge Costa Santos, Jorge Fernan- des Alves, José Morgado Pereira, Madalena Esperança Pina e Maria de Fátima Nunes.

    Exposição e catálogo começam por nos dar o panorama de saúde pública encontrado pelo regime republicano: indigência, fome, condições de higiene e saneamento menos do que mínimas, elevadas taxas de mortalidade e morbilidade infantil, acesso muito escasso (sobretudo fora de Lisboa) a cuidados continuados de saúde e prevenção. Ante esta realidade, como escreve Jorge Fernandes Alves no artigo Saúde e Fraternidade - A Saúde Pública na I República, o regime teve uma entrada de leão: "(...) A Primeira República conviveu positivamente com o desenvolvimento do sistema de saúde pública, nomeadamente com a legislação algo eufórica do Governo Provisório, numa atenção que depois perdeu ímpeto". Apesar dos avanços conseguidos (nomeadamente na aposta na prevenção e no desporto através da escola), a tarefa era hercúlea e embateu em obstáculos difíceis de transpor como a eclosão da I Guerra Mundial e a propagação (também a ela associadas) de várias epidemias extremamente mortíferas como a pneumónica, popularmente conhecidas como "gripe espanhola". Em 1926, data da queda da I República, "o sistema de saúde estava administrativamente muito centrado em Lisboa, para cujos estabelecimentos com mau funcionamento se esvai o orçamento de Estado, com a província a contar quase só com a iniciativa particular, com a ação das misericórdias e com os 'partidos médicos' municipais". Por outro lado, revelava-se "a incapacidade para afirmar um sistema sanitário autónomo, independente das vontades e alterações políticas, com cobertura nacional, não se tendo sequer discutido no Parlamento a proposta de reforma veiculada, em 1919, pela Direção-Geral de Saúde."

    Não obstante, o período em causa foi, por todo o mundo ocidental, uma época de experimentação e progresso técnico ao serviço da Medicina e Portugal, na escassez dos seus meios, não foi exceção. Na mostra do Terreiro do Paço acompanhamos a evolução das faculdades de Medicina portuguesas e o investimento científico realizado em áreas como a Psiquiatria ou a Medicina Legal. No seu artigo incluído no catálogo, João Lobo Antunes refere-se, por exemplo, ao trabalho científico e político (foi fundador do Partido Republicano Centrista) de Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina, em 1949.

    Também no Terreiro do Paço, no torreão nascente, a Comissão para o centenário da República evoca outro aspeto deste ideal de "Mente Sã em Corpo São" que iluminava os ideólogos da I República: a viagem, o turismo e o objetivo de levar os portugueses da classe média a conhecer o seu pais. Ao longo dos painéis da exposição (dispostos numa montagem muito criativa e surpreendente) veem-se imagens de felicidade, frequentemente bucólicas, desde postais ilustrados de Vidago, Aveiro, Vila do Conde, Cúria ou Figueira da Foz, o Algarve antes do turismo de massas, passageiros dos transatlânticos à descoberta de Lisboa, toilettes estivais mas elegantes, piqueniques, malões de viagem (como aqueles que a atriz Amélia Rey-Colaço utilizava nas suas tournées pelo Brasil e colónias de África).

    O caminho-de-ferro e as estradas progrediam em extensão e em condições de conforto, construíam-se hotéis cada vez mais modernos, casinos e estâncias balneares (data de 1914, por exemplo, a apresentação por Fausto de Figueiredo de "Estoril, Estação Marítima, Clima térica, Thermal e Desportiva". Raul Proença desenvolvia uma longa investigação pelo país inteiro que se traduziu na obra em vários volumes (ainda hoje não substituída), Guia de Portugal. O Estado encomendava filmes propagandísticos sobre as belezas naturais de Portugal a empresas francesas tão reputadas como a Gaumont ou a Pathé.

    No seu artigo do catálogo desta exposição (comissariada por Maria Alexandre Lousada e Ana Paula Pires), Licínio Cunha refere-se amplamente ao modo como medidas de iniciativa estatal como a criação da Sociedade Propaganda de Portugal ou a Organização Oficial do Turismo mudaram o quadro do setor em Portugal, até então muito ligado à ocupação dos tempos livres das elites: "É entre 1911 e 1927 que são lançadas as bases legislativas e organizativas de uma atividade embrionária, a hotelaria, os órgãos locais de turismo, as agências de viagens, o jogo, a propaganda internacional e o apoio financeiro ao turismo. Foi necessário percorrer um longo caminho feito de desvios, hesitações e desilusões, mas também de entusiasmo, teimosia, perseverança e muita carolice, para que o turismo viesse a alcançar o lugar que os seus pais fundadores sonharam."

    A exposição Viajar surpreende-nos ainda com a produção bibliográfica dos autores nacionais e estrangeiros que, nessa época, viajaram pelo país e sobre ele escreveram, desde Ramalho Ortigão ao espanhol Miguel de Unamuno.

    A escolha destes dois temas - CorpoViajar - para ilustrar o quotidiano mais íntimo dos portugueses que viveram o período entre 1910 e 1926 (complementando, desta forma, a grande exposição da Cordoaria Nacional, em que a primazia é dada à turbulenta vida política do período) não é ocasional nem meramente ilustrativa. A República, como todos os regimes, viu-se na contigência de legislar e normalizar a esfera mais privada dos cidadãos, desde a sua sexualidade (como Michel Foucault não cessa de notar na sua obra História da Sexualidade) à ocupação do ócio. Interessante seria perceber quais os pontos de rutura e também de continuidade que o Estado Novo estabelecerá com esta herança.

    25-08-10

  • 08.08.2010
    Jornal de Notícias
    1.ª República capta turistas

    A exposição Viajar. Viajantes e Turistas à descoberta de Portugal no tempo da I República, inaugurada a 23 de Julho, no Terreiro do Paço, em Lisboa, superou as expectativas e recebeu mais de 10 mil visitantes no primeiro mês. Visitantes nacionais e internacionais, sobretudo espanhóis e franceses, procuraram a exposição, realizada com o apoio do Turismo de Portugal, para saber mais sobre destinos mais preferidos e ainda o tipo de roupa e objectos que os portugueses levavam na sua mala de viagem no início do século XX.

  • 02.08.2010
    Público
    República viva

     

     

    Agosto é mais propício às praias, já se sabe, mas por algumas horas pode ser saudável subtrair o corpo aos raios solares e levá-lo até outras aventuras. Uma, inesquecível, corre o risco de ser desmesurada para a (escassa?) procura, mas é imperdoável perdê-la. Trata-se da exposição Viva a República! (l9l0-2O1O), acto maior do centenário e que ocupa na íntegra as instalações da Cordoaria Nacional, em Lisboa. Quem pensa tratar-se de um desfile fastidioso de bigodes, cartolas e chapéus de coco desengane-se.

     

    A forma como foi concebida, se por um lado revela uma paixão indisfarçável pela revolução da "Ideia", mostra ali também tudo o que contribuiu para acelerar o seu fim. Como uma sucessão de quadros num teatro, as várias alas da exposição fazem "desfilar"

    perante o visitante, dando a sensação de que elas próprias se movem e não apenas quem as vê e visita, uma República viva, repleta

    de pequenas histórias, nomes, lugares, cartazes, sons, filmes, declarações inflamadas e gritos de revolta, peças de oratória e manifestos eloquentes, caricaturas virulentas e sátiras mordazes a tudo e todos. Que num jornal como O Zé retratavam, com um desenho a condizer, a sessão parlamentar de uma certa quarta-feira de 1912 do seguinte modo:

     

    "Sôccos, bofetadas,

    pontapés, murros, cachações,

    caldos, galhetas, solhas, cervejas,

    estalos e um monoculo Pelo ar!

     Ena, rapazes! D'esta vêz é que foi

    trabalhar!"

     

    E, claro, com caricatura ou sem ela, também as coisas da vida de todos os dias: em casa, nas escolas, nos espectáculos, nas ruas.

    Lá estão os cartazes das modas e os que vendiam cognac, os das touradas e os do boxe (com Max Fredo, o "rei do K.O.” e o célebre

    e popular Santa Camarão), os dos teatros e das sessões de cinema no Chiado Terrasse. E a Orpheu, claro, Almada e Pessoa e os gritos das artes contra a já exposta falência dos políticos. E, a par das novas liberdades sociais e políticas, a humilhação dos padres e a

    expulsão dos jesuítas, o que levou a comparar Afonso Costa ao Marquês de Pombal (que, nem de propósito, viria a ganhar por via republicana uma estátua em pleno centro da Rotunda que, de lugar histórico do republicanismo se tornou depois, assim se mantendo hoje, Praça Marquês de Pombal). E ainda os terrores da guerra, com os seus milhares de mortos e mutilados, as trincheiras da pesada

    derrota de La Lys e os minutos de silêncio pedidos a "homens de todas as crenças" para "glorificar" "os que deram o seu sangue pela grandeza de Portugal". E, numa repetição fatal, os tumultos e revoltas, as trocas imparáveis de ministros e as greves, o descontentamento

    popular e a degradação progressiva do poder e do Estado.

     

    São precisas várias horas, até porque é impossível desviar o olhar de muitos dos textos, escritos de forma clara e atractiva e expostos

    com mestria gráfica, mas vale a pena. Mais do que uma exposição, Viva a República! é uma sucessão de quadros vivos, impressivos, que aproxima a história do comum dos mortais. Quem a visitar, voltará outra vez. Só é pena que tal trabalho se perca e não fique, como

    merecia, para museu. Nuno Pacheco 

     

    02-08-2010

     

     

  • 30.07.2010
    Jornal Letras, Artes & Ideias
    A revolução sem cravos

    28_jul_10_revolucionarios

    Na Cordoaria, em Lisboa, celebra-se a República. Neste imenso espaço que foi, em tempos, uma fábrica de cordame para navios da Marinha, pode-se revisitar com pormenor a História do regime instaurado a 5 de Outubro de 1910. Na exposição Viva a República há de tudo para todos os públicos: uma grande aula de História, um jogo que reconstitui a viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral e uma loja onde é possível comprar postais, sabonetes comemorativos e até um bigode republicano. A não perder, até Outubro.
    Maria João Martins

    Há uma vibração de esperança nas fotos a preto e branco expostas na Cordoaria. Multidões nas ruas de Lisboa e Porto enfrentam com confiança a câmara do repórter. São anónimos que saíram à rua para apoiar a República e que, noutras circunstâncias, teriam a maior dificuldade em posar para a fotografia. Mas ali, no preciso momento em que se fechou o obturador da máquina, estavam iluminados pela candura de quem, do futuro, espera tudo porque a República, tão ansiada por muitos, acabara de triunfar. Acrescentássemos nós os cravos nas espingardas e quase não as distinguiríamos de outras fotos, tiradas, 64 anos mais tarde, a 25 de Abril de 1974.

    Ao todo, Viva a República é composto por oito núcleos que correspondem a outros tantos momentos do regime, desde a génese do movimento republicano em Portugal até à instauração da ditadura militar, em 1926, que conduziu ao salazarismo. No percurso (longo, recomendando-se, por isso, calçado confortável), o visitante é convidado a viajar, entre muita iconografia e referências informativas, jornalísticas e literárias, ao longo de mais de meio século da História de Portugal, com grandes expectativas de mudança e as correspondentes desilusões. «A ideia - explica ao JL, Fernanda Rollo, membro da Comissão das Comemorações do Centenário da República - é apresentar uma visão tão abrangente quanto possível deste período estruturante da nossa História contemporânea, relacionando os acontecimentos políticos com a sociedade, a economia, mas também a cultura e o desporto. Do mesmo modo, colocamos Portugal no contexto internacional, até porque a nossa República foi instaurada quando na Europa só a França e a Suíça não tinham regimes monárquicos. Essa faceta de inovação a nível mundial ainda não foi suficientemente sublinhada pela historiografia e pela literatura sobre o tema.»

    No princípio vemos uma Monarquia constitucional em processo de decadência. Em 1876, com D. Luís solidamente instalado no trono, foi constituído o primeiro Diretório do Partido Republicano, que teve a sua grande manifestação pública inicial quatro anos depois, nas comemorações do tricentenário de Camões. Uma década mais tarde, já com o filho, D. Carlos, como rei, a espiral de acontecimentos encarregar-se-ia de transformar a ideia de república numa alternativa de poder: ao Ultimatum inglês de 1890 seguir-se-ia a revolta de 31 de Janeiro, a ditadura de João Franco e uma intolerância crescente à monarquia que culminaria com o regicídio.

     Na Cordoaria, são-nos dados a ver numerosos testemunhos dessa efervescência, alguns dos quais inéditos, desde reportagens fotográficas de comícios republicanos assinadas por Joshua Benoliel até filmes (provenientes do arquivo da Cinemateca Portuguesa e decerto muito pouco vistos até à data) sobre os funerais de D. Carlos e seu filho, Luís Filipe. Segue-se naturalmente a evocação da madrugada de 5 de Outubro, com os seus protagonistas e heróis anónimos, mas o que esta exposição propõe está longe de ser um panegírico da I República. Num país arcaico, rural, com índices de miséria proporcionais a elevadíssimas taxas de analfabetismo, o esforço de modernização era hercúleo e um clima de (novo) desencanto social não tardou a instalar-se.

    Como é mostrado ao visitante, reformas da maior importância como a Lei do Divórcio (promulgada logo a 3 de novembro de 1910, quando o novo regime ainda não completara um mês), a separação do Estado e da Igreja e a obrigatoriedade do Registo Civil (ambas em 1911) não impediram que, em breve, se instalasse um clima de mal estar, nomeadamente nos grandes centros urbanos e fabris. Como afirma Fernanda Rollo: «Embora a História não possa ser totalmente objetiva, não quisemos escamotear os aspetos menos conseguidos do regime. De facto, a I República nunca conseguiu estabelecer um diálogo aceitável com o operariado nem soube resolver os conflitos existentes no seio das suas elites. Essa crispação social agudizou-se nos anos que se seguiram à I Grande Guerra e, na verdade, não podemos ignorá-lo porque teve consequências profundas e foi um elemento estruturante da sociedade portuguesa."

    Desde a sua génese, o 5 de Outubro foi tudo menos uma revolução com cravos. Como podemos ver ao longo da exposição, às fotografias jubilatorias dos primeiros meses não tardam a seguir-se as que documentam cargas da recém-constituída Guarda Nacional Republicana sobre os grevistas, a mais pungente indigência que, em 1917, alimentará as filas para as sopas dos pobres e o mito autoritário de Sidónio Pais e os soldados que, a partir de 1916, marcham para a Flandres sem compreenderem as razões dos políticos de Lisboa. Máscaras de gás, crianças descalças, governos sucedendo-se a governos cada vez mais rápidos, as aparições de Fátima e o recrudescimento do catolicismo, a noite sangrenta que, a 19 de outubro de 1921, matou António Granjo, Carlos da Maia e Machado dos Santos e, finalmente, o 28 de maio de 1926, com a marcha de Gomes da Costa sobre Lisboa e o final de um sonho.

    Mas vemos também as imagens e ouvimos os sons da forte aposta da República na Educação e alfabetização de homens e mulheres, a popularização do desporto, com heróis trágicos como o maratonista Francisco Lázaro ou festivos como Cosme Damião, fundador do Sport Lisboa e Benfica, e grandes feitos, como a viagem aérea de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Podemos até ver alguns excertos dos primeiros filmes inteiramente feitos em Portugal, como Os Crimes de Diogo Alves, de Rino Lupo, ou Garden-Party no Estoril, em que uma senhora da alta sociedade desfila para a câmara toilettes à la garçonne.

    "A nossa ideia de abrangência implicou, sublinha Fernanda Rollo, conciliar os dados mais recentes obtidos pelos historiadores e uma apresentação que seja acessível a todos os públicos, incluindo as crianças.»

    Comemorar é, porém, muito mais do que uma evocação. Sendo esta exposição «um dos pontos altos do programa de comemorações», propõe-se, no final do percurso, uma reflexão sobre o que resta hoje do legado cívico e ético da I República. Para a historiadora, «o 5 de Outubro foi um momento de ímpeto e de crença otimista na superação das dificuldades coletivas da nação e levou a um projeto político empenhado em alicerçar a unidade nacional em torno da modernidade e dos valores liberais e democráticos. Houve, realmente, um propósito fundador que condicionou o país em que vivemos.»

    No final da exposição, depois de milhares e milhares de fotografias com milhares e milhares de rostos, as paredes tornam-se brancas e apenas são dadas a ver (também em branco) algumas palavras: Socialização, Homem Novo, Revolução, Pátria, Democracia, Humanidade, Igualdade, Democracia. Quem ousa dizer que já passaram à História?

    28-07-2010 

  • 28.07.2010
    Jornal Público
    I República - Viajantes e Turistas

    Os casinos, os hotéis elegantes, as praias e os monumentos que transformaram Portugal num destino turístico em voga nas primeiras décadas do século XX podem ser revisitados na exposição Viajar, no Terreiro do Paço.

    Viajar 1

    A nova era portuguesa inaugurada com o advento da República, em 1910, traduziu-se também numa nova ordem do lazer. As praias da Figueira da Foz, Maçãs, Nazaré, Santa Cruz e Lagos e as termas das Pedras Salgadas, Vidago, Curia, Entre-os-Rios deixaram de ser apenas lugares de tratamento para maleitas várias e converteram-se em sítios de lazer, recreio e repouso.

    Determinados os períodos de férias nas escolas e tribunais (1910) e fundada a Repartição de Turismo (1911), o novo regime primou por construir a imagem de um Portugal turístico, rivalizando directamente com os mais prestigiados destinos dos turistas europeus. Por isso, nas décadas de 1910 e 1920 emergiu a propaganda colorida que anunciava Vidago como "a Vichy portuguesa", enquanto o Estoril competia com a Riviera e as águas do Seixoso comparavam-se à Evian.

    A rede ferroviária que quase atravessava o país e a abertura dos portos para os paquetes a vapor oriundos de distantes paragens europeias permitiram transformar o território nacional num espaço com uma oferta muito diversificada - quem procurava animação, património, repouso, ócio ou lazer tinha muito por onde escolher, lia-se nos guias e manuais para viajantes.

    Uma mostra desse Portugal cosmopolita pode ser observada na exposição Viajar - Viajantes e Turistas à descoberta de Portugal no Tempo da I República, patente no Torreão Nascente do Terreiro do Paço até 6 de Outubro (aberta das 10h às 18h, com entrada gratuita). Organizada por Maria Alexandra Lousada e Ana Paula Pires no âmbito das comemorações dos 100 anos da República, a exposição é composta sobretudo por reproduções de fotografias, postais, gravuras e cartazes que revisitam desde os mais elegantes hotéis das primeiras décadas do século XX aos roteiros históricos, passando pelos desportos náuticos e pelos bailes nos casinos. Mas estão também expostos objectos de viajantes famosos - as malas de cabine de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro e a cartola de Ribeirinho -e, ininterruptamente, são projectados filmes (da Cinemateca Portuguesa) que evocam lugares e momentos emblemáticos desse Portugal que despertava para o turismo. Maria José Oliveira

    28-07-2010

  • 26.07.2010
    Turisver
    Turismo do século passado no Terreiro do Paço

    O Torreão Nascente do Terreiro do Paço, em Lisboa, tem patente desde ontem a exposição “Viajar, viajantes e turistas à descoberta de Portugal no tempo da I República”. Até 6 de Outubro, com entrada livre.

     Esta é uma exposição que dá a oportunidade de conhecer mais sobre os hábitos turísticos de quem fazia turismo há cem anos atrás, no tempo da implantação da República em Portugal. Que destinos escolhiam os que podiam fazer turismo? Seriam assim tão poucos? Que roupas vestiam, que artigos levavam na bagagem? Que meios de transporte usavam, e que roteiros consultavam? Estas e outras questões são respondidas numa exposição promovida pela Comissão Nacional para a Comemorações do Centenário da República e apoiada pelo Turismo de Portugal.

    Maria Alexandre Lousada e Ana Paula Pires são as comissárias da exposição, que está organizada em cinco núcleos: Viajar; Os lugares de Turismo; Férias em Portugal; À descoberta de Portugal; e O Turismo e a República.
    N.A.

    http://www.turisver.com/article.php?id=49041

    24-07-2010