
Catarina Mendonça Ferreira foi conhecer como era a escola no tempo dos seus avós na exposição sobre o ensino na I República que inaugurou no Palácio Valadares, antiga escola Veiga Beirão.
Num país onde a taxa de analfabetismo rondava os 80%, a educação foi um dos aspectos a que a I República se atirou de unhas e dentes desde 1910. Isso é coisa que se percebe assim que se entra na exposição “Educar. Educação para todos. Ensino na I República” que inaugurou no Palácio Valadares, e se dá de caras com uma frase do pedagogo César da Silva: “O mais imperioso dever do Estado é instruir, porque instruir é enriquecer e dar felicidade.”
Depois de duas mostras – uma dedicada às viagens e turismo e a outra à medicina durante a I República –, a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, continua o programa de festas com mais uma exposição, desta feita ligada ao tema da educação.
Na antiga Escola Veiga Beirão reconstituíram-se várias salas de aula, uma biblioteca e muitos outros espaços onde o visitante pode acompanhar o papel desempenhado pelo ideal educativo republicano, a sua dimensão e o impacto que teve até aos dias de hoje. “Apesar de ter um cunho de modernidade, este ideal educativo republicano, que se apoiava em seis pilares (cidadania, laicização, alfabetização, democratização, escolarização e descentralização), manteve uma certa continuidade do regime monárquico”, explica Maria Cândida Proença, comissária da exposição.
Se hoje se luta para estender o ensino obrigatório até ao 12º ano, nesta altura uma das primeiras vitórias da República foi tornar o ensino primário obrigatório.
A Cartilha Maternal era a bíblia deste ideal educativo republicano e é um dos muitos objectos que se pode ver nesta mostra. Algumas das frases reproduzidas nas paredes deixam perceber a forma como se escrevia na altura. Há exemplos curiosos como a seguinte frase: “vai lá pedil-o”.
Numa das paredes está reproduzido um cabide onde se prendiam sacolas, batas e sapatos na escola. “Em 1910, muitos dos alunos nem usavam sapatos, eram--lhes emprestados só para os dias de exame”, conta a comissária.
Na sala seguinte faz-se a vénia a muitos dos pedagogos que desempenharam papéis importantes neste país. Pode ouvir--se Bernardino Machado, João de Deus Ramos e João de Barros, entre outros, na voz de actores como Manuel Wiborg e Pedro Gil.
Numa outra sala, conhecem-se os heróis das histórias que figuravam nos livros da República, altura em que se dizia que a “moral é feita por imitação”. Bons exemplos a seguir eram Afonso Albuquerque, Vasco da Gama, Rafael Bordalo Pinheiro e Marquês de Pombal, que, por acaso, foi figura unânime fosse qual fosse o regime em vigor.
Uma das salas mais apelativas da exposição é a que reconstitui o ambiente de uma sala de aula de há 100 anos. Carteiras, cadeiras e quadro de ardósia vieram de uma escola de Válega, em Ovar. Com as secretárias que subiam e desciam – ergonómicas já na altura – vieram também outros objectos: um ábaco, tinteiros e, imagine-se, algo que não podia faltar numa sala de aula, um escarrador. Na parede lateral estão vários cartazes do corpo humano, de insectos e outros animais. Por cima da secretária do professor é projectado um vídeo da Cinemateca que mostra o quotidiano de um colégio interno daquela altura.
Se toda a exposição olha para o passado da educação em Portugal, toda a tecnologia ali presente pertence ao futuro. Há ecrãs tácteis, vídeos e sons que evocam outras épocas. Tudo coisas que fazem reflectir e ter esperança no futuro da educação em Portugal.
A exposição está no Palácio Valadares (Lg do Carmo) até 30 de Junho. Segunda a domingo, das 10.00 às 18.00. A entrada é livre.