
Na Cordoaria, em Lisboa, celebra-se a República. Neste imenso espaço que foi, em tempos, uma fábrica de cordame para navios da Marinha, pode-se revisitar com pormenor a História do regime instaurado a 5 de Outubro de 1910. Na exposição Viva a República há de tudo para todos os públicos: uma grande aula de História, um jogo que reconstitui a viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral e uma loja onde é possível comprar postais, sabonetes comemorativos e até um bigode republicano. A não perder, até Outubro.
Maria João Martins
Há uma vibração de esperança nas fotos a preto e branco expostas na Cordoaria. Multidões nas ruas de Lisboa e Porto enfrentam com confiança a câmara do repórter. São anónimos que saíram à rua para apoiar a República e que, noutras circunstâncias, teriam a maior dificuldade em posar para a fotografia. Mas ali, no preciso momento em que se fechou o obturador da máquina, estavam iluminados pela candura de quem, do futuro, espera tudo porque a República, tão ansiada por muitos, acabara de triunfar. Acrescentássemos nós os cravos nas espingardas e quase não as distinguiríamos de outras fotos, tiradas, 64 anos mais tarde, a 25 de Abril de 1974.
Ao todo, Viva a República é composto por oito núcleos que correspondem a outros tantos momentos do regime, desde a génese do movimento republicano em Portugal até à instauração da ditadura militar, em 1926, que conduziu ao salazarismo. No percurso (longo, recomendando-se, por isso, calçado confortável), o visitante é convidado a viajar, entre muita iconografia e referências informativas, jornalísticas e literárias, ao longo de mais de meio século da História de Portugal, com grandes expectativas de mudança e as correspondentes desilusões. «A ideia - explica ao JL, Fernanda Rollo, membro da Comissão das Comemorações do Centenário da República - é apresentar uma visão tão abrangente quanto possível deste período estruturante da nossa História contemporânea, relacionando os acontecimentos políticos com a sociedade, a economia, mas também a cultura e o desporto. Do mesmo modo, colocamos Portugal no contexto internacional, até porque a nossa República foi instaurada quando na Europa só a França e a Suíça não tinham regimes monárquicos. Essa faceta de inovação a nível mundial ainda não foi suficientemente sublinhada pela historiografia e pela literatura sobre o tema.»
No princípio vemos uma Monarquia constitucional em processo de decadência. Em 1876, com D. Luís solidamente instalado no trono, foi constituído o primeiro Diretório do Partido Republicano, que teve a sua grande manifestação pública inicial quatro anos depois, nas comemorações do tricentenário de Camões. Uma década mais tarde, já com o filho, D. Carlos, como rei, a espiral de acontecimentos encarregar-se-ia de transformar a ideia de república numa alternativa de poder: ao Ultimatum inglês de 1890 seguir-se-ia a revolta de 31 de Janeiro, a ditadura de João Franco e uma intolerância crescente à monarquia que culminaria com o regicídio.
Na Cordoaria, são-nos dados a ver numerosos testemunhos dessa efervescência, alguns dos quais inéditos, desde reportagens fotográficas de comícios republicanos assinadas por Joshua Benoliel até filmes (provenientes do arquivo da Cinemateca Portuguesa e decerto muito pouco vistos até à data) sobre os funerais de D. Carlos e seu filho, Luís Filipe. Segue-se naturalmente a evocação da madrugada de 5 de Outubro, com os seus protagonistas e heróis anónimos, mas o que esta exposição propõe está longe de ser um panegírico da I República. Num país arcaico, rural, com índices de miséria proporcionais a elevadíssimas taxas de analfabetismo, o esforço de modernização era hercúleo e um clima de (novo) desencanto social não tardou a instalar-se.
Como é mostrado ao visitante, reformas da maior importância como a Lei do Divórcio (promulgada logo a 3 de novembro de 1910, quando o novo regime ainda não completara um mês), a separação do Estado e da Igreja e a obrigatoriedade do Registo Civil (ambas em 1911) não impediram que, em breve, se instalasse um clima de mal estar, nomeadamente nos grandes centros urbanos e fabris. Como afirma Fernanda Rollo: «Embora a História não possa ser totalmente objetiva, não quisemos escamotear os aspetos menos conseguidos do regime. De facto, a I República nunca conseguiu estabelecer um diálogo aceitável com o operariado nem soube resolver os conflitos existentes no seio das suas elites. Essa crispação social agudizou-se nos anos que se seguiram à I Grande Guerra e, na verdade, não podemos ignorá-lo porque teve consequências profundas e foi um elemento estruturante da sociedade portuguesa."
Desde a sua génese, o 5 de Outubro foi tudo menos uma revolução com cravos. Como podemos ver ao longo da exposição, às fotografias jubilatorias dos primeiros meses não tardam a seguir-se as que documentam cargas da recém-constituída Guarda Nacional Republicana sobre os grevistas, a mais pungente indigência que, em 1917, alimentará as filas para as sopas dos pobres e o mito autoritário de Sidónio Pais e os soldados que, a partir de 1916, marcham para a Flandres sem compreenderem as razões dos políticos de Lisboa. Máscaras de gás, crianças descalças, governos sucedendo-se a governos cada vez mais rápidos, as aparições de Fátima e o recrudescimento do catolicismo, a noite sangrenta que, a 19 de outubro de 1921, matou António Granjo, Carlos da Maia e Machado dos Santos e, finalmente, o 28 de maio de 1926, com a marcha de Gomes da Costa sobre Lisboa e o final de um sonho.
Mas vemos também as imagens e ouvimos os sons da forte aposta da República na Educação e alfabetização de homens e mulheres, a popularização do desporto, com heróis trágicos como o maratonista Francisco Lázaro ou festivos como Cosme Damião, fundador do Sport Lisboa e Benfica, e grandes feitos, como a viagem aérea de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Podemos até ver alguns excertos dos primeiros filmes inteiramente feitos em Portugal, como Os Crimes de Diogo Alves, de Rino Lupo, ou Garden-Party no Estoril, em que uma senhora da alta sociedade desfila para a câmara toilettes à la garçonne.
"A nossa ideia de abrangência implicou, sublinha Fernanda Rollo, conciliar os dados mais recentes obtidos pelos historiadores e uma apresentação que seja acessível a todos os públicos, incluindo as crianças.»
Comemorar é, porém, muito mais do que uma evocação. Sendo esta exposição «um dos pontos altos do programa de comemorações», propõe-se, no final do percurso, uma reflexão sobre o que resta hoje do legado cívico e ético da I República. Para a historiadora, «o 5 de Outubro foi um momento de ímpeto e de crença otimista na superação das dificuldades coletivas da nação e levou a um projeto político empenhado em alicerçar a unidade nacional em torno da modernidade e dos valores liberais e democráticos. Houve, realmente, um propósito fundador que condicionou o país em que vivemos.»
No final da exposição, depois de milhares e milhares de fotografias com milhares e milhares de rostos, as paredes tornam-se brancas e apenas são dadas a ver (também em branco) algumas palavras: Socialização, Homem Novo, Revolução, Pátria, Democracia, Humanidade, Igualdade, Democracia. Quem ousa dizer que já passaram à História?
28-07-2010






