Maria Veleda, pseudónimo de Maria Carolina Frederico Crispem, dedicou-se, desde muito cedo, a causas políticas e sociais, incomodando os poderes eclesiásticos e políticos instituídos do início do século XX. A afirmação pertence à investigadora Natividade Monteiro que deu a conhecer "Maria Veleda (1871-1955) Feminista Republicana, Pedagoga e Livre-Pen-sadora", em mais uma confe- rência do ciclo "As Mulheres e a I República", que decorreu no passado dia 18, no Museu Bernardino Machado, em Vila Nova de Famalicão. Perante uma audiência a-tenta e interessada Nativi- dade Monteiro apresentou o percurso de vida desta mulher que foi uma das figuras maiores do feminismo em Portugal. Filha da classe média algarvia, Maria Veleda foi influenciada pelo teatro, sonhando desde sempre em escrever peças de teatro com personagens femininas, participando, aos sete anos de idade, no Teatro Lethes, na peça "Lenço Branco". De espírito indomável, começou aos 19 anos, a colaborar com a imprensa algarvia e alentejana, escrevendo crónicas literárias e artigos, onde defendia uma educação e uma pedagogia feminista contra as superstições e o analfabetismo. Conheceu Cândido Guerreiro, do qual teria um filho, assumindo-se mãe solteira, não aceitando o convite de casamento, pois segundo ela, um casamento devia ba-sear-se no amor e na confiança incondicionais e não no sentimento de compaixão ou de meras convenções sociais. Colocada como professora no Alentejo, em 1905 des-loca-se para Lisboa e em 1906 torna-se professora auxiliar no Centro Republicano Afonso Costa. Conver-te-se aos ideais republicanos e inicia a sua colaboração em jornais como "A Vanguarda"," Século" ou "O Mundo", conhecendo republicanos como Magalhães Lima, Alexandre Braga, França Borges, entre outros. Em 9 de Fevereiro de 1908, a seguir ao regicídio, Maria Veleda escreve um artigo intitulado "A Propósito", no jornal "A Vanguarda" que esgotou duas edições do mes- mo jornal e lhe valeu um pro-cesso-crime por abuso de liberdade de imprensa. No texto, escreveu que o "Rei provocou o seu próprio desfecho" e que "morreu um Rei, antes ele que um homem!". Estas palavras agradaram aos republicanos que então lhe prestaram uma homenagem. De resto, nos seus textos, Maria Veleda apelava sempre a uma educação racional influenciada pela educação nova, uma educação integral, laica, defendendo a conciliação das artes e da ciência para a formação cívica, assim como uma educação física. Em Abril de 1908, pertenceu à Comissão organizadora do I Congresso Nacional do Livre-Pensamento, com a presença de republicanos, socialistas e anarquistas, e, para além das questões sociais, reivindicou o amor-livre. Fez parte do Grupo das Treze e criticou todos os que se serviam da República para satisfazer os seus interesses próprios, discursando contra as incursões monárquicas, defendendo o regime republicano. Escre- veu e conspirou, igualmente, contra a ditadura de Pimenta de Castro. Entre 1915 e 1916 defendeu a participação de Portugal na I Guerra Mundial e aliou-se ao Partido Democrático de Afonso Costa. Fundou, em 1915, aAssocia-ção Feminina de Propaganda Democrática, com uma actuação cívica e política para passar à prática os direitos da mulher. Com a noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921, Maria Veleda desilude-se com a República. Passa a escrever em jornais e revistas, como "O Século", "A Pátria", fundando "A Asa, "O Futuro", "A Vanguarda Espírita", com comentários políticos e sobre educação, mantendo uma atitude crítica de maior distanciamento, não sem um certo humor. No final da conferência, Natividade Monteiro ofereceu ao Museu Bernardino Machado o seu livro "Maria Veleda: feminista republicana, escritora e conferencista". Este livro contém as "Memórias de Maria Veleda", publicadas no jornal "República "em 1950.