José António Simões Raposo Júnior

José António Simões Raposo Júnior nasceu em Lisboa em 22/07/1875 e faleceu na mesma cidade a 08/07/1948

Tal como seu pai, Simões Raposo Júnior exerceu funções de Professor na Casa Pia de Lisboa, actividade que foi interrompida por processo movido pela Ditadura e que o conduziu a Timor. Assumiu-se como Republicano convicto, homem íntegro e defensor de princípios e ideais, sendo esta a vertente em destaque na presente Biografia.

De um «manifesto» ao(s) concidadão, em Lisboa – 20 de Novembro de 1899, podemos concluir que os seus princípios «assentam na VERDADE, firmam-se na JUSTIÇA, conduzem-se pela HONRA, refazem-se no PROGRESSO», e que tendo-lhe sido pedido para ser candidato a Deputado, negou, resistiu e acabou por ceder, em nome dos princípios «e ao que a elles devia».

Afirma-se «liberal e independente» e refere «Indagae quem sou. Se favoráveis respostas vos derem, votae commigo, peço-vos; se contrárias, votae, mas não em mim».

Segundo palavras do próprio Simões Raposo «aos 18 anos já era republicano», pois a propósito da sua nomeação para Professor da Casa Pia em 16/12/1893, com 18 anos, afirma «sendo já republicano».

Em recorte de Jornal não identificado pela família, pode ler-se em «Figuras que marcam», que Simões Raposo foi «professor ilustre e educador emérito (figura maior) do ensino popular», «jornalista», «doutrinário», «conferencista», «honesto e leal até ao fanatismo (…) Político tem-no sido no mais elevado sentido do termo. Fez parte do ‘comité’ revolucionário que, em 5 de Outubro de 1910, operou a mudança das instituições, e foi, mais tarde, deputado da Nação (…)»

José António Simões Raposo foi membro da Comissão de Resistência da Maçonaria (com outros maçons) pela Loja Solidariedade, e com o nome «Castilho ou Catão».

Em edição sobre António José de Almeida pode ler-se que da Assembleia Geral de 14 de Junho de 1910 do Grande Oriente Lusitano resultou uma «comissão de resistência maçónica», de que fazia parte, entre outros, Simões Raposo; a comissão convida o Directório (do P.R.P.) a designar um representante civil, e este indica António José de Almeida, entretanto substituído por António Maria da Silva (1).

Portanto, esta Comissão de Resistência integrava um elemento civil e outro militar, bem como representantes do Directório, e o primeiro, António Maria da Silva, representava também a Carbonária, o que aceitou «após uma entrevista com Simões Raposo, que teve lugar no Café Martinho» (2). 

Com a relação Maçonaria – Directório – e também Carbonária, a «Comissão de Resistência» assume o carácter de «Junta Revolucionária» e como tal «dirigiu o movimento que veio a eclodir na madrugada de 3 - 4 de Outubro» (3).

Na História da República – edição comemorativa do Cinquentenário – (4) é dado destaque a Simões Raposo quanto ao seu «papel de primeiro plano na preparação revolucionária do movimento republicano, triunfante e iniciado no dia 5 de Outubro de 1910 para o qual trabalhou com êxito».

Mais é referido, a propósito da intervenção de Simões Raposo nas reuniões da Comissão de Resistência, que «numa delas Simões Raposo apresentou um plano, unanimemente aprovado, para a utilização dos grupos civis organizados pela Carbonária», devendo-se a esta decisão o importante contributo dos civis para a vitória republicana em 5 de Outubro.

Simões Raposo afirmaria, e é citado na História do Cinquentenário, que «’Desde há muito que se trabalhava num sentido francamente revolucionário e, como eu, outros elementos. A nossa acção, porém, só se manifestou com maior intensidade a partir de 14 de Junho de 1910. Nesse dia efectuou-se a reunião magna para deliberar sobre a oportunidade da revolução (…)’», e após esta decisão, refere ainda Simões Raposo que a Comissão de Resistência recebe entusiastas aderentes e reúne todos os dias no Centro de S. Carlos.

Após a implantação da República, foi Deputado às Constituintes pelo Círculo de S. Tomé, e também Deputado pelo Círculo de Lisboa em 1915.

Uma profunda relação de amizade e política unia Simões Raposo a António José de Almeida, tendo sido seu secretário particular no Governo Provisório (Ministério do Interior) e vindo a aderir ao Partido Evolucionista criado em Fevereiro de 1912, de que é também secretário.

 A morte de António José de Almeida em 1929 foi para Simões Raposo um grande golpe, e sendo depositário do manuscrito «Pela Verdade», que havia prometido a António José de Almeida entregar a sua filha quando esta tivesse 18 anos, assim o cumpriu em 27 de Dezembro de 1929.

A partir de 31/10/1930 passarão a decorrer iniciativas em comemoração do aniversário da morte de António José de Almeida, e entre as manifestações desse ano há referências «à conferência de Simões Raposo na Associação do Registo Civil», como também se menciona o seu nome a propósito da iniciativa e dos organizadores da edificação do monumento a António José de Almeida.

Do Relatório nº. 767, de 30/7/1931 – do Inspector Roque Manoel de Arriaga (5) - «Inquérito ao Professor da Casa Pia de Lisboa, José António Simões Rapôzo Júnior» - dirigido ao Exmº. Sr. Director Geral de Assistência (documento em posse da família) podemos concluir que o Professor havia sido considerado arguido, mas o referido inspector entende como insuficientes os elementos «que competiriam à Polícia colher e averiguar, a fim de se estabelecer uma acusação mais formal neste assunto de natureza política (pelo que se limitou) a intimar o referido cidadão para comparecer (…)» e alegar por escrito o que entendesse.

Mais refere o inspector que através do documento escrito por Simões Raposo «verifica-se que não engeita as suas responsabilidades, se bem que declara não ter ouvido, na sessão a que presidiu, ataques directos à Dictadura».

O conteúdo da «cópia da resposta do arguido Simões Rapôzo» (20/7/1931) revela uma verticalidade extraordinária e o forte carácter do Homem, que sendo Professor é sobretudo Cidadão.

Ao dirigir-se ao Ministro do Interior refere que não compreende como o mesmo despachou depreendendo que ele se conformara «com os ataques à dictadura e à sua obra», e afirmando que presidiu à sessão, quando a exposição policial não o afirma.

Simões Raposo considera que «alguém o disse e é de lamentar que esse alguém não tivesse dito também a S.Exª. que eu sou, sempre fui e serei adversário intransigente da dictadura».

Prossegue ainda e afirma «Não ouvi ataques à dictadura, pelo menos directos, mas se os tivesse ouvido ou depreendido, pode V.Exª. estar certo de que os ouviria com o maior agrado e os teria aplaudido, que mais não fosse, de mim para mim».

É muito claro que estava em causa que Simões Raposo devia optar pela cidadania ou pela profissão, então, ele traça em síntese a sua biografia de republicano e professor, e refere o momento mais próximo da sua prisão de 98 dias sob o Sidonismo, após a qual destaca «fui para minha casa e só voltei à política quando eclodiu o 28 de Maio».

Portanto, «Estou na Republica porque defendo princípios que a razão me impõe. E desde que há incompatibilidade não hesito. Cidadão ou professor? Perguntam-me? Respondo: - Cidadão. V.Exª. não tem que hesitar: - demitir-me; é mais do que o seu direito, é o seu dever, já que, perante a História, assumiu a tremenda responsabilidade de ser dictador. O futuro nos julgará»

Simões Raposo foi enviado para Timor, mas, antes, em 31 de Janeiro de 1931 (antes mesmo da sua resposta escrita em Julho do mesmo ano) escrevia no ALJUBE o soneto

«Entre ferros …»

«Que importa a liberdade ter perdida
Se a hora da vitoria há-de chegar!?..
Que a Idea prosegue, sem parar
Quanto mais por chatins é perseguida !..

Nossa alma, em vão, em vão será batida,
Mas antes. com fervôr, se há-de abrasar
Que à insânia ruim fará voltar
A dôr, em dos dobrada. Devolvida!.

Que não se abate o coração d’um forte
Pois tem de resistir até à morte
P’la verdade e justiça – o idial! …

Tendo por norte o amor da causa publica
Que se cifra tão só numa Republica
Democrática, laica e liberal! …»

Após o seu regresso de Timor, em 1933, Simões Raposo «abandonadas as funções de professor da Casa Pia de Lisboa (a que esteve ligado 38 anos) assumiu as funções de Chefe dos Serviços Escolares (na Voz do Operário), cargo que desempenhou condignamente no ano lectivo de 1933/1934» (6).

Ainda segundo a Imprensa, nas referências a Simões Raposo após a sua morte, podemos concluir que depois de Timor não voltou a ensinar, foi funcionário da Companhia de Seguros ‘Tágus’ (7), colaborou com a Voz do Operário nas suas iniciativas, exerceu as funções de Inspector da Escola
‘A Voz do Operário’, proferiu Conferências, em particular no âmbito da instrução, por exemplo nos aniversários da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, e o Centro Escolar Republicano Dr. Alberto Costa terá sido a «última colectividade onde Simões Raposo fez propaganda democrática» (8).

Certamente que estaria muito cansado e desiludido com um regime político que o impediu de ser publicamente um cidadão de pleno direito, sentir-se-ia talvez velho e doente, pelo que às 16 horas do dia 8 de Dezembro de 1946 escreveu as suas últimas disposições, pois embora estivesse convicto de que se manteria forte até ao fim, deveria temer qualquer «idiotice» que fizesse ou dissesse em contrário ao que escreveu.

Assim, pede mesmo que «tomem pois como idiotice (…)» o que seja diverso de tudo o que espera venha a ser respeitado e cumprido, como um «enterro civil pobríssimo e modestissimo (…) luto nenhum, e nada de exteriorizações (…)» o que fundamenta nos seus princípios de crente «em Deus e por isso, com Deus tudo, mas também, por isso mesmo, com a Egreja – Nada, absolutamente nada!» (sublinhados do próprio).

Enquanto consciente, salienta que «mantenho (…) quanto disse – tudo – absolutamente tudo! Homem de uma só cara e uma só fé – quero morrer como sempre fui – íntegro».

No mesmo documento manuscrito, acrescenta em 27 de Outubro de 1947 «Quero ir para a terra», havendo nota em o Jornal República – 8/7/1949 – da sua campa com o Nº. 5841 no Cemitério da Ajuda.

Simões Raposo veio a falecer em 8 de Julho de 1948, e nessa hora de luto, como refere a Imprensa, é descrita a afluência de milhares de pessoas ao Cemitério da Ajuda, amigos, como por exemplo a filha de António José de Almeida, também em representação de sua mãe, personalidades diversas, os Centros Escolares Republicanos, mas sobretudo «o povo que tanto o ouvira nos comícios e centros republicanos, que lhe queria como se quer a um apóstolo, e o amava na sua simplicidade austera …»

A homenagem dessa multidão era controlada pela Polícia Municipal, mas apesar disso houve um grito de «Viva a República», e se Simões Raposo «soube morrer agarrado aos seus ideais de sempre», a sua «semente lançada à terra frutificou. O sentimento republicano é cada vez maior, alargou-se em extensão, tornou-se mais consciente e firme» (9).

O reconhecimento pelo valor do Homem, Amigo e Democrata revela-se nas notícias do primeiro ano sobre a morte de Simões Raposo, que é identificado pelo contraste entre a sua simplicidade e debilidade provocada pela doença e «vontade que não conhecia limites quando se tratava de cumprir os deveres cívicos».

Dele se diz ainda que foi grande sonhador, lutador, defensor da Pátria e da «reconciliação de todos os portugueses». No quadro da II Guerra, terá «feito a mais entusiástica propaganda a favor da causa dos aliados – que considerava a causa da Democracia», levando consigo a esperança de «melhores dias para a Humanidade» (10). 

Nos aniversários da sua morte, e em anos sucessivos o ‘República’ foi referindo Simões Raposo, e em 7/7/1970 assinala 22 anos sobre o seu desaparecimento com destaque para a figura de idealista, «Liberal e romântico, recitando Hugo e sabendo de cor páginas inteiras de Louis Blanc, vivendo a paixão do seu ideal - que nunca, um só momento, renegou».

Se a História da República – Edição comemorativa do Cinquentenário já havia assinalado o contributo decisivo de Simões Raposo na acção revolucionária que culminou com a vitória republicana de 5 de Outubro, designadamente o seu papel na Comissão de Resistência da Maçonaria e organização dos civis, a publicação em 2009 de «A Maçonaria e a Implantação da República» pela Fundação Mário Soares e Grémio Lusitano, permite divulgar no Centenário – 2010 – documentos diversos compilados e anotados por Simões Raposo, que reflectem o quadro conspirativo da época e confirmam as características organizativas do Homem que os reuniu.

Divulgar esta documentação no âmbito de Centenário pode ser também uma certa forma de homenagear Simões Raposo, que foi sobretudo um homem de acção, alguém que planeava e executava, ‘apagando-se’ sem protagonismo, fosse por vontade própria ou pelo contexto dos acontecimentos políticos e protagonistas emergentes.

Na I República não pretendeu assumir ou não lhe foram atribuídas funções políticas de relevo, e das mesmas não há registos significativos ou particular destaque. Foi Deputado às Constituintes pelo Círculo de S. Tomé, ficando uma dúvida sobre o porquê da associação a esta região; - foi Deputado pelo Círculo de Lisboa em 1915; - desempenhou as funções de secretário particular de António José de Almeida enquanto Ministro do Interior do Governo Provisório da República e foi depois secretário do Partido Evolucionista criado pelo mesmo A. J. de Almeida.

Por ser sempre fiel aos seus princípios e aos valores da Democracia foi preso pelo Sidonismo e mais tarde veio a sofrer a perseguição da Ditadura, deixou de ser Professor da Casa Pia e assumiu um trabalho para o qual não estaria particularmente vocacionado, foi coarctado na sua liberdade de Cidadão, morreu íntegro e sem renegar os seus ideais.

Preservou documentos de extrema importância para compreender a organização do movimento de 5 de Outubro de 1910, papéis em que ele próprio fez anotações e que só decorridos cerca de 100 anos viram a luz do dia; que as comemorações do Centenário da República reponham alguma justiça sobre a figura e o papel de José António Simões Raposo Júnior.

(1) – TORGAL, Luís Reis – António José de Almeida e a República – Discurso de uma vida ou vida de um discurso, Temas e Debates, pág. 84

(2); (3) – MEDINA; João (Dir.) (1985) – História Contemporânea de Portugal (I) – Primeira República, Lisboa, Amigos do Livro Editores – págs. 25, 26

(4) – HISTÓRIA DA REPÚBLICA (s.d) – Edição Comemorativa do Cinquentenário da República, Lisboa, Editorial Século – págs 575 e 580

(5) - Roque Manoel de Arriaga – Cópias de Documentos, apensas a um cartão do próprio, e que o mesmo dirige a Emília Simões Raposo (filha de Simões Raposo); como refere «representam uma homenagem à saudosa memória do prof. José António Simões Rapôzo, de quem fui muito amigo e admirador do seu enorme carácter», Lisboa, 1/10/1963

(6)  -  Jornal -  «A Voz do Operário», Lisboa,  8/8/1948

(7) –  Jornal «República», Lisboa, 7/7/1970

(8) -  Jornal «República», Lisboa, 8/7/1949

(9) -  Jornal «República», Lisboa, 9/7/1948

(10) - Jornal «República», Lisboa, 9/7/1949

Biografia elaborada por Carlos Arbués Moreira ( Bisneto de Simões Raposo) e Francisca Bicho (sua mulher), Professora de História do Ensino Secundário -