Não faltaram zaragatas durante a Primeira República. Os conflitos que a cada passo envolviam inimigos políticos, trabalhadores descontentes, grevistas, anarquistas, etc., transformavam-se com frequência em tumultos violentos de que resultavam mortos e feridos. Mas também houve zaragatas perfeitamente banais e até anedóticas, como o caso da pateada à actriz Adelina Abranches num teatro do Porto.

Adelina Abranches acabava de regressar de uma digressão no Brasil e seguiu para o norte com a companhia do empresário José Loureiro que ia apresentar no teatro “Águia D’ouro” a peça Menina de Chocolate.

No dia da estreia, logo que Adelina entrou no palco foi atingida por uma chuva de batatas lançada pelo público em fúria. Em vez de se retirar, a actriz aproximou-se da boca de cena para tentar perceber o que se passava. A chuva de batatas intensificou-se e ressoaram gritos “fora a talassa! fora a talassa!” (talassa era o nome depreciativo que os republicanos davam aos monárquicos).

Adelina esperou que os ânimos acalmassem e depois falou ao público dizendo que só era monárquica porque aprendera a estimar a família real desde criança, mas não representava nenhum perigo para a República pois não mantinha actividade política. Os colegas solidarizaram-se, a sala serenou e a representação pode prosseguir.

Mas no dia seguinte uma comissão de republicanos procurou a actriz no hotel para lhe ordenar que abandonasse a cidade imediatamente. Ela não acatou a ordem, argumentou que se estava ali era porque precisava de trabalhar e rematou perguntando “Afinal que mal é que eu faço à República?” ao que um dos visitantes respondeu indignado “A senhora é tão talassa que até traz rótulos da cor da bandeira portuguesa do tempo da monarquia colados nas malas! Ela conteve-se para não rir e explicou então que os rótulos lhe tinham sido fornecidos pela companhia quando partira para o Brasil. Eram simples marcas destinadas a um reconhecimento mais rápido da bagagem na ida e na volta, azuis e brancas por puro acaso.

A explicação pôs fim à zaragata e não houve mais pateadas no “Águia D’ouro”.

Autoria: Plano Nacional de Leitura