O navio Moçambique, que mais tarde mudou de nome e passou a chamar-se Pedro Álvares Cabral foi descrito em pormenor pelo primeiro chefe de Governo da República Portuguesa, João Chagas. Nas suas memórias, a que deu o título de Trabalhos Forçados João Chagas recorda o Conselho de Guerra que o julgou a ele e a vários companheiros depois da revolta republicana que eclodira no Porto a 31 de Janeiro de 1891. (Os julgamentos decorriam a bordo de navio fundeados no porto de Leixões para evitar manifestações populares à porta dos tribunais).

“O Conselho de Guerra que funcionou no Moçambique instalou-se na câmara de 1ª classe, à qual, para o efeito, se havia dado a disposição de uma sala de tribunal (…) os primeiros dias do Conselho foram para nós uma verdadeira diversão porque todo aquele espectáculo era novidade, desde o próprio Conselho, até às singulares circunstâncias em que se realizava (…) O tempo, até ali de uma admirável serenidade, toldou-se; levantaram-se furiosas ventanias, o mar revolto entrou a bater com fúria nos paredões do molhe e dentro do porto de abrigo, nos navios, começaram a sentir-se os efeitos do balanço. E os Conselhos de Guerra, nos quais a nossa liberdade ia decidir-se, tomaram então para nós um aspecto novo. Viu-se isto, este espectáculo sem precedentes: a justiça enjoada”.

Autoria: Plano Nacional de Leitura