Holofotes
Nos primeiros anos da República, as ruas de Lisboa foram várias vezes iluminadas por holofotes a meio da noite. A iniciativa coube a Jaime Leote do Rêgo, que em 1916 comandava os navios fundeados no Tejo. Em Janeiro desse ano, Pimenta de Castro fora chamado a formar governo e instaurara a ditadura. Sucederam-se protestos sem fim, que o governo ignorou.
Leote do Rêgo encabeçou então um golpe que pôs em prática na madrugada do dia 14 de Maio. Posicionara os navios bem de frente para a cidade, à hora combinada mandou acender os holofotes que havia a bordo de modo a iluminar a baixa e a zona ribeirinha. Esse era o sinal combinado para que grupos de militares e civis que se encontravam em terra atacassem os quartéis.
A população acordou em sobressalto, sem saber a que se deviam aquelas luzes e o tiroteio que se seguiu.
Uma força fiel ao governo tentou alvejar os navios do alto de Santa Catarina e logo os navios ripostaram e bombardearam o bairro. E então gerou-se o caos. Janela estoiradas, prédios a arder, famílias inteiras em fuga com as suas crianças ao colo, um pavor. Não havendo condições de segurança, o Presidente da República foi escoltado para o Quartel do Carmo. Os ministros retiraram-se porque os navios entretanto tinham apontado os canhões aos ministérios do Terreiro do Paço. Pouco depois o governo demitiu-se em bloco e tudo podia ter acabo assim, mas os ânimos estavam muito exaltados pelo que se multiplicaram os tumultos de rua, assaltos a casas, lojas e esquadras de polícia, ajustes de contas, pancadaria, trocas de tiros. Morreu muita gente e chegou a haver fuzilamentos sumários. Finalmente no Domingo seguinte tudo acalmou.
O golpe estava concluído e com êxito. No entanto, volta e meia Leote do Rêgo, a pretexto de procurar possíveis inimigos, vasculhava as ruas de Lisboa com os seus holofotes. É de supor que a população tenha apanhado alguns sustos.
Autoria: Plano Nacional de Leitura

