Aviação
A aviação é uma conquista do século XX. O primeiro aparelho com motor a levantar voo foi obra de dois americanos, os irmãos Wright. Só um deles pôde efectuar a descolagem porque só havia lugar para um tripulante. Conseguiu sobrevoar uma praia da Carolina do Norte durante 12 segundos. Ninguém imaginava então qual seria o futuro dos “aparelhos voadores”, mas a novidade entusiasmou muita gente e sucederam-se as experiências em vários países. Em 1906 o brasileiro Santos- Dumont, que vivia em Paris, construiu um aparelho que ele próprio pilotou percorrendo cerca de 60 metros e atingindo 3 metros de altura, para pasmo da assistência. Três anos depois, um francês sobrevoava o Canal da Mancha. O primeiro português a voar foi Oscar Blanck, mas fez a sua experiência em França.
Os aparelhos continuavam a ser pequenos e rudimentares, no entanto o entusiasmo pela aviação crescia, e em 1910 já se realizavam festivais aéreos e em 1911 corridas aéreas, sempre sobrevoando terra ou à vista de terra.
A República Portuguesa tinha 2 anos quando Alberto Sanches de Castro pilotou o primeiro avião em Portugal. Mas os heróis da aviação portuguesa foram Gago Coutinho e Sacadura Cabral que em 1922 ousaram tentar a longa travessia do Atlântico Sul. Partiram de Lisboa a 30 de Março a bordo do hidroavião Lusitânia, que tinha 1 motor, 1 hélice e lugar para 2 tripulantes. Levavam consigo apenas bóias de fumo, mapas, instrumentos de navegação para se poderem orientar, pois em grande parte do percurso não veriam mais que mar e céu.
Um desses instrumentos de navegação era um sextante que os marinheiros utilizavam desde o século XVIII para medir a altura dos astros tendo a linha do horizonte como ponto de referência. Gago Coutinho, depois de muito pensar e estudar, descobriu uma forma de poder utilizar o sextante nas viagens aéreas em que não podia contar com a linha do horizonte. A alteração que introduziu no instrumento permitia-lhe determinar o lugar do planeta terra que sobrevoava, mesmo que diante dos olhos tivesse apenas mar e céu 1.
Acomodaram também no reduzido espaço de que dispunham, 1 pistola de sinais luminosos, 1 lanterna a pilhas, 1 caixa de primeiros socorros, água, 4 quilos de chocolate, 1 quilo de bolachas. E, com valor simbólico, 1 garrafa de vinho do Porto e os Lusíadas.
A viagem, perturbada por fugas de óleo e outras avarias, teve de ser feita por etapas porque o hidroavião não comportava combustível suficiente para voar sem parar até ao Brasil. Sucederam-se peripécias que obrigaram a paragens nas Canárias, em Cabo Verde, e junto aos penedos de S. Pedro e S. Paulo, perto da ilha Fernão de Noronha já nas imediações da costa brasileira. Aí, o Lusitânia avariou. O governo português enviou outro hidroavião no navio Bagé para que os aviadores pudessem completar a travessia. Mas pouco depois de levantarem voo, o motor falhou e o hidroavião caiu ao mar. Não havendo na época maneira de comunicar à distância naquelas circunstâncias, Gago Coutinho e Sacadura Cabral encavalitaram-se no aparelho que flutuava e aguardaram a sua sorte rodeados de tubarões. Felizmente o navio português República encontrava-se na zona, de atalaia, estranhou a demora e fez um aviso à navegação em português, francês, inglês. Foi o cargueiro inglês Paris City que recolheu os aviadores a meio da noite.
A travessia do Atlântico Sul estava na verdade praticamente concluída, mas estes “heróis do ar” não quiseram desistir à vista da meta e o governo português enviou-lhes no navio Carvalho Araújo um outro hidroavião, baptizado com o nome de Santa Cruz. A 5 de Junho levantaram voo pela manhã e às 13 horas e 20 minutos amararam finalmente junto à praia do Recife. Daí seguiram sobrevoando a costa brasileira em viagem triunfal com paragem em várias cidades: Recife, Baía, Porto Seguro onde se demoraram um dia em homenagem a Pedro Álvares Cabral, Vitória, Rio de Janeiro. Foram aclamados em delírio por toda a parte.
No diário, escreveram “saltámos em terra içando a bandeira brasileira e dando 21 tiros com a pistola de sinais! Estava completa a travessia aérea Lisboa – Rio de Janeiro!”
1. O sextante de Gago Coutinho passou a ser um instrumento essencial em todas as viagens da época.
Autoria: Plano Nacional de Leitura

