I República: O que foi feito na investigação e o que falta fazer

Data de publicação: 
27.05.2011

Por muito prolífica e até surpreendente que se revele a investigação até aqui realizada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL sobre a I República e o Republicanismo, com perto de 500 registos identificados de 1945 a 2011, entre textos, artigos e teses, “ainda há muito trabalho de investigação a fazer”.

Nisso concordaram vários historiadores participantes no debate realizado dia 26 de Maio, na FCSH/UNL, na sequência da apresentação do Guia Bibliográfico da I República elaborado por daquela faculdade, que inclui cerca de 500 títulos, de 53 autores, produzidos em 23 unidades de investigação.
Ana Pires, a investigadora que fez esta recolha de dados, disse ter ficado “surpresa, não só pela riqueza documental encontrada como pela interdisciplinaridade presente” na produção.

“O primeiro trabalho sobre a I República foi feito por Joel Serrão em 1945, com um texto sobre a correspondência de Fernando Pessoa, seguindo-se em 1947 uma edição na Seara Nova”, o que atribui a este historiador o pioneirismo na investigação sobre a I República.
Até à actualidade, salientou Ana Pires, a produção passou por várias tendências historiográficas. Começou por assentar numa “historiografia de resistência ao Estado Novo e foi com Oliveira Marques que descolou dessa utilização e passou a ter um teor mais científico, com base em documentos de arquivos”.

“A produção de Joel Serrão e de Oliveira Marques foi esmagadora”, mas, salientou, vários outros investigadores se destacaram a partir da década de 70, como Vasco Pulido Valente, com a tese publicada em 1974, O Poder e o Povo, “um texto incontornável, que vai introduzir uma ruptura, feito com recurso a arquivos externos” e, mais tarde António Reis, entre muitos outros.

Nem só do departamento de história partiram as investigações. Muitas foram multidisciplinares e envolveram vários departamentos ou partiram de unidades como o Cesnova. Já em 1990, o Instituto de História Contemporânea, veio mudar a maneira de fazer história, com estudos mais direccionados, como a história do movimento operário, o Sidonismo, a I Guerra Mundial, ou ainda as Mulheres na I República.

“O ano de 2010 foi bastante profícuo ao nível da I República e contam-se 58 registos, entre textos, artigos e teses”, afirmou Ana Pires.
O debate que se seguiu à apresentação do Guia Bibliográfico não se centrou apenas na produção científica da FCSH e abrangeu as dezenas de livros editados em 2010 sobre a I República.

Para António Matos Ferreira, do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR), “há hoje uma melhor compreensão do universo republicano” e houve “aquisições da investigação” em questões como a separação do Estado das Igrejas.

Já para Hipolito La Torre Gomez, investigador espanhol, da UNED, que foi amigo de Oliveira Marques, a quem chamou “o fundador da história científica da I República”, “falta fazer muito em matéria de investigação. E uma das coisas que falta é ver de fora a República”.
António Reis, do Instituto de História Contemporânea, salientou como positivo “a pluralidade de obras e enfoques” na produção entre 2007 e 2011, com mais de 60 títulos dignos de referência.

Entre essas obras, abrangendo diversos domínios, desde os ensaios com fundamento científico, às reedições, catálogos de exposições e actas de colóquios, álbuns, e colectâneas de artigos, António Reis considerou ter faltado apenas obra no domínio do pensamento republicano.

Mas contrariou a “tentativa de balanço das edições da I República, feita em 2010 pelo ensaísta Miguel Real no Jornal de Letras”, para quem tinha havido “muita quantidade, qualidade alguma e novidade nenhuma”.

“Discordo. Há muita novidade e boa nas obras que referi aqui”, disse António Reis.

Também Rui Vieira Nery, musicólogo, fez um balanço muito positivo, salientando ser “impressionante” a produção, em relação á qual “a comunidade académica e os cidadãos se devem orgulhar”.

Nas Artes, disse Rui Vieira Nery, esse balanço foi menos positivo, pela própria debilidade dos estudos, em que a produção foi menos relevante, embora tenha havido algum esforço dos praticantes das disciplinas.

“O que mais se destacou no domínio das Artes, acabou por ser a produção institucional e uma grande parte dela está nos catálogos das exposições realizadas pelo IMC em colaboração com a CNCCR”, salientou.

“Na fotografia, as exposições do centenário levantaram um património fotográfico extraordinário e no cinema, a exposição realizada em parceria com a Cinemateca e o Museu de Ciência da UL deu também origem a um bom catálogo, disse Rui Vieira Nery, para quem na área da Dança foi publicado um livro de referência “ Dançar para a República” obra coordenada por Daniel Tércio.

António Ventura considerou que nas comemorações do Centenário “houve imensas novidades. Uma montanha de coisas novas, com novos estudos e interpretações”.

Entre as publicações destacou os Roteiros Republicanos, que “embora de qualidade desigual, todos trouxeram informações úteis”, lamentando apenas a “péssima distribuição” e referiu ainda os catálogos de exposições realizadas por diversas câmaras municipais, como as de Almodôvar, Arcos de Valdevez, Loulé, Lousã, Montijo, Setúbal e Monchique, a par do catálogo da exposição sobre Carolina Beatriz Ângelo, que esteve no Museu da Guarda.

Estas publicações permitem “uma visão muito mais alargada do país”, salientou António Ventura.

Voz dissonante foi a do investigador Nuno Pinheiro, do ISCTE, que disse sentir “algumas perplexidades” face ao que foi dito pelos anteriores participantes e às próprias comemorações.

“Uma comemoração como esta vai no sentido de alargar o conhecimento ao conjunto da sociedade. Tenho algumas dúvidas se as comemorações contribuíram para isso. Não sei se o conhecimento pelo contrário não terá piorado”.

Para Nuno Pinheiro, na área da fotografia, “as exposições não trouxeram nada de novo”.

“Permito-me discordar da sua perspectiva. Já superámos há muito aquela versão da história entre apologistas e detractores”, disse António Reis.