A I República e a História

Data de publicação: 
17.07.2011

“Até às vésperas do 25 de Abril não há uma historiografia académica da I República e ela só começa a ser construída por exilados políticos, como Vasco Pulido Valente, Manuel Villaverde Cabral e Vitorino Magalhães Godinho”.
A afirmação é de Fernando Rosas e foi feita no colóquio “A I República e a História”, no qual o historiador e presidente do Instituto de História Contemporânea traçou o percurso das diversas correntes historiográficas relativas à I República.
“Na segunda metade dos anos 20 e princípios dos anos 30 há um discurso demonizante da República que é então apresentada como o descalabro financeiro, o terrorismo político, a oposição à Igreja… Esse discurso vai ter grande importância para a oposição, cuja cultura historiográfica vai ser a da defesa total da República”, acrescentou Rosas.
“O primeiro historiador republicanista, fundador de uma tradição maçónica, foi Oliveira Marques, homem de grande cultura e que foi vice-grão mestre da maçonaria e que era um admirador de Afonso Costa. Oliveira Marques estabelece um corrente republicanista-maçónica que recupera essa cultura republicana”., disse ainda.
“Depois houve um hiato, que só foi quebrado por ocasião das comemorações do Centenário do Regicídio. E agora, com as Comemorações do Centenário da República, há uma historiografia republicana muito pujante”, salientou o historiador.
Para Fernando Rosas, a razão que levou os jovens estudantes e historiadores a descobrir  e estudar a I República residiu no facto de ela ter representado “uma importante tentativa de democratização social e política, que falhou”.
O historiador recordou que em 1928, Salazar, “que vinha com a aura de técnico das finanças para resolver um problema orçamental.. e a seguir vieram 48 anos de ditadura”.
“Pagámos caro esse erro. E hoje há uma grande preocupação das pessoas em perceber porque é que aquele regime não correu bem. E isso é bom”, disse Fernando Rosas.
Mário Soares, que também participou neste colóquio – o último de uma série promovida pela FMS e pela CML e iniciada em Janeiro de 2010, na Câmara Municipal de Lisboa – destacou que hoje vivemos a II República.
O ex-Chefe de Estado disse ser inaceitável que se considere o período da ditadura como fazendo parte da República. “Não podemos aceitar que aqueles que sempre odiaram a República se pudessem considerar a II República”, sustentou.
No colóquio, que Mário Soares ilustrou contando vários episódios da sua vida política, destaca-se o da sua viagem de comboio rumo a Portugal na sequência do 25 de Abril, em que diz ter pensado a certa altura: “Se chegarmos a viver em democracia um pouco mais de 16 anos já ultrapassámos a I República em democracia”.