“República e identidadeS. Alma, Cultura e Ciência”

Data de publicação: 
21.06.2011

Portugal não está em risco de perder identidade, diz Eduardo Lourenço
Qual é a identidade de Portugal? Quem e o que faz parte dela? Em tempo de crise, estará ela em risco? O tema foi dia 20 de Junho discutido no colóquio “República e identidadeS. Alma, Cultura e Ciência” na Fundação Calouste Gulbenkian, onde estiveram o ensaísta Eduardo Lourenço, a cientista Maria de Sousa e o historiador e Bispo do Porto D. Manuel Clemente.
Coube a Rui Vilar, presidente do conselho de administração da Fundação Calouste Gulbenkian e Artur Santos Silva, presidente da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, em nome das duas instituições parceiras na promoção do colóquio, introduzir os temas e os intervenientes nesta iniciativa.
“São valores do humanismo clássico, os que se vão debater aqui”, sublinhou Rui Vilar.
“O ideal pátrio, sendo um valor primeiro da República, seria naturalmente tratado nas comemorações do Centenário”, disse Artur Santos Silva, que citou textos de Jorge de Sena de 1974 e 75 para destacar a “extraordinária capacidade dos portugueses para sobreviver nas mais adversas circunstâncias”.
A cada um dos intervenientes no colóquio coube depois analisar um aspecto dessa identidade portuguesa. A alma foi tratada por D. Manuel Clemente, a ciência por Maria de Sousa e a cultura coube a Eduardo Lourenço, que de imediato colocou o tema na actualidade.
“Portugal está confrontado com uma situação inédita e difícil, mas o país não está em risco de perder a sua identidade. Confronta-se com o desafio o mais imprevisto possível. É um momento extremamente penoso e humilhante, mas este país tem uma longa história” e “a sua identidade não está em risco”, sustentou Eduardo Lourenço.
O que é afinal essa identidade? Para o autor de “O Labirinto da Saudade”, “a identidade não é qualquer coisa que nos possamos dar a nós mesmos. Ela é-nos dada. É como os nomes. Ninguém se dá nome a si próprio. Um povo, os indivíduos, são realidades vivas. Nós somos tempo e uma nação é tempo vivido em comum”. Disso se faz a identidade de um país.
 “Só quando estamos doentes é que o problema da identidade se põe. Ela é construída pela relação que se tem com os outros. E temos condições de preservar aquilo que somos? O desejo de ser tudo, de todas as maneiras?”, questionou Eduardo Lourenço.
Na resposta, o ensaísta convocou o pensamento de Jorge de Sena:“A nossa história, o nosso destino enquanto realidade histórico-política é uma espécie de milagre”.
“Nós temos uma mentalidade naturalmente milagreira. Como se as coisas caíssem do céu mais ou menos feitas. E a verdade é que a própria existência deste pequeno recanto é assombrosa. Durante muitos séculos, os portugueses não tiveram problemas de identidade. A nossa definição, lá fora, era de cristãos. E, até ao século XIX, não se levantava o problema. Foi aí que começou a colocar-se um problema moderno de identidade”, sustentou Eduardo Lourenço.
Períodos houve na história em que corremos o risco de ser anexados. Mas tal não aconteceu. E “nós continuamos com a nossa bandeirinha”, sublinhou o ensaísta, segundo o qual “se alguma vez Portugal ardesse, tal como os judeus da diáspora ele nasceria de novo em várias partes do mundo”.
Antes, já o primeiro interveniente no colóquio, D. Manuel Clemente, caracterizara “com a máxima simplicidade” a alma portuguesa:“Somos voláteis e adaptáveis, mas mesmo assim nós mesmos. Talvez nem pudéssemos ser de outra forma, a geografia esmagou-nos contra o mar”.
Recordando a lengalenga que há 50 anos se ensinava nas escolas portuguesas sobre a origem de Portugal e os povos que se instalaram na península, contrariou a forma simplista como nela era encarada a história: “Na realidade tudo foi muito mais complexo. As várias presenças conviveram entre elas em vários casos. Começámos complicados logo à partida”, disse. “Somos um povo de torna-viagem, com alguma coisa nos porões e uma memória para o futuro”, sublinhou.
Para definir a alma portuguesa, D. Manuel Clemente recordou um episódio “quase simbólico” que presenciou.
“Em 1992, no ecuménico Encontro de Culturas, houve quem se lembrasse de ir buscar o hino das comemorações henriquinas. A letra desse hino, porém, já não servia. Então alguém inventou outra letra para a mesma música. Mas não resultou, até porque se juntavam na mesma celebração os que tinham cantado a primeira versão e os que cantavam a segunda. Uma identidade não se constrói com uma mera mudança de leitura”, salientou o historiador.
Maria de Sousa, bióloga-imunologista e investigadora na área da bio-medicina falou da identidade na Ciência, ou antes das identidades.
“Não existe uma única forma de identidade. Isso vê-se até na biomedicina. Quando se pesquisa a palavra identidade aparecem referências a cerca de quatro mil publicações”, exemplificou.
Para mostrar que a Ciência é um dos motivos de orgulho nacional, Maria de Sousa exibiu um gráfico, no qual os cientistas constam entre os grupos mais prestigiantes e que mais contribuem para a identidade portuguesa, tal como os artistas e os filósofos.
E na ciência temos antepassados, disse, destacando nomes como o do médico Garcia de Orta, o do filósofo e médico Francisco Sanches ou ainda o do matemático José Anastácio da Cunha.
A identidade dos investigadores hoje já não está só contida nas universidades e, para transformar um país velho num país novo, tem de ser pedido ao país que reconheça os seus cientistas. Em Ciência não há Saramagos”, disse Maria de Sousa.
A cientista defendeu porém que, “contra tudo e contra todos, há razão para ter esperança”.