“A República no Mundo” em diferentes perspectivas

Data de publicação: 
25.05.2011

Diferentes perspectivas e posicionamentos em relação aos sucessos e infortúnios da República foram defendidos no colóquio “Pensar a República 1910-2010” que hoje se iniciou na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Para Medeiros Ferreira, professor jubilado da FCSH convidado a abrir o encontro “a República foi fomentada por um movimento endógeno da sociedade e, se sofreu influência da III República francesa, foi mais de carácter temático e ideológico”, do que propriamente uma influência causadora da revolução de 1910.

Portugal foi “um país pioneiro na difusão de governos republicanos no continente europeu, onde na época apenas existiam duas repúblicas, a III República Francesa e a Confederação Helvética” salientou Medeiros Ferreira.

A difusão dos serviços públicos e a modernização do aparelho do Estado, bem como a criação do registo civil obrigatório foram inovações trazidas pela República, que, com a reforma militar de 1911, tornou também obrigatório o serviço militar.

Enquanto na “formação do contingente militar da monarquia constitucional havia uma negociação relativamente a quem dele deveria fazer parte, com a República o serviço militar obrigatório chegou ao país profundo, obrigando as famílias a ficar sem os seus mancebos. E se até 1914 a aplicação da lei foi suave, depois a República defrontou-se com a I Guerra Mundial”, sublinhou Medeiros Ferreira.

Sobre a entrada de Portugal na Guerra, que “foi tudo menos uma brincadeira de crianças” e para a qual foi pedido um empréstimo no valor de 20 milhões de libras, Medeiros Ferreira considerou que os republicanos “foram muito ajudados pelo impulso alemão de declarar guerra a Portugal, em Março de 1916”.

E apesar de a Grã-Bretanha não defender a participação de Portugal, “os soldados portugueses só deixaram de ser preciosos para os aliados quando os Estados Unidos entraram na guerra”, já em 1917.

Uma visão diferente, “menos optimista” sobre a República “como se vê do exterior” foi apresentada por outro participante no colóquio, o investigador espanhol Hipólito Torre Gomez, da UNED, especialista em História Comparada, que abordou o tema “La republica en una Europa imperialista”.
“Não partilho a ideia de que a República foi normal e pioneira. Discordo. De 1919 para a frente, a República foi desastrosamente má. Tão má que abriu as portas a uma ditadura”, sustentou Torre Gomez.

“A promessa da República brasileira” foi o tema apresentado por Celso Castro, da Fundação Getúlio Vargas. Para este investigador em Antropologia Social, a instauração da República no Brasil, a 15 de Novembro de 1889, foi um golpe de Estado, conduzido por um grupo de militares”, o, que “não foi consensual na sociedade brasileira, como muitas vezes se faz crer.

Houve várias revoltas de soldados, movimentos que foram reprimidos e, nalguns casos censurados nos jornais, pelo que sobre eles existe pouca informação, explicou Celso Castro. “Em Mato Grosso, onde só se soube da instauração da República um mês depois, vários soldados se revoltaram e alguns foram mortos “.

“Não houve uma revolução social profunda mas ocorreu uma mudança de regime”, acrescentou Celso Castro, segundo o qual “o pecado original da República brasileira foi não ter contado desde o início com o efectivo engajamento da população”.

Quando foi instaurada, a República Federativa do Brasil era provisória. O primeiro decreto republicano, que saiu ao fim do dia 15 de Novembro de 1889, dizia que ela era decretada provisoriamente e aguardando-se ainda o pronunciamento da nação, através de plebiscito. Mas esse plebiscito não foi feito e só ocorreu 104 anos depois, em 1993 quando monarquia e república tinham já significados muito diferentes, salientou Celso Castro.

No colóquio interveio ainda Ana Maria Homem de Melo, da Câmara Municipal de Lisboa, que falou sobre a “A toponímia republicana desaparecida – casos lisboetas”.

As primeiras alterações dos nomes das ruas de Lisboa foram feitas logo dia 6 de Outubro, em que por proposta do vereador Nunes Loureiro a Avenida Ressano Garcia passou a chamar-se Avenida da República.

Os editais relativos a alterações na toponímia sucederam-se e logo a 5 de Novembro de 1910 surgiu um que eliminou muitas referências à monarquia, entre elas a Rua bela da rainha, que passou a chamar-se Rua da Prata.

A participação cívica foi grande e as propostas de alteração na toponímia lisboeta foram sendo sucessivamente apresentadas não só pela vereação, como por diversas juntas de paróquia, como Alcântara, Santo André e Santo Estêvão e também por associações republicanas. No total, segundo Ana Homem de Melo, terão ultrapassado as 5 centenas de propostas. Destas, cerca de 200 foram efectivamente aprovadas. Mas nem todas vingaram. Porque muitas foram depois substituídas pelo Estado Novo, que cirurgicamente eliminou os topónimos ligados a acontecimentos ou a imagens da República, mas não os que representavam pessoas.

António Rendas, apesar de jovem, “conseguiu aparecer como a mais republicana de todas as instituições de ensino em Portugal”.